Predefinição:Info/Corrida automobilística
Resultados do Grande Prêmio de Portugal de Fórmula 1 realizado em Estoril em 23 de setembro de 1990.[1] Décima terceira etapa do campeonato, foi vencido pelo britânico Nigel Mansell, da Ferrari. Ao seu lado no pódio estavam Ayrton Senna pela McLaren-Honda e Alain Prost, também piloto da Ferrari.[2]
Resumo
Peças em movimento
Jean Alesi chegou à Fórmula 1 sob os auspícios de Ken Tyrrell e pontuou logo em sua estreia com um quarto lugar no Grande Prêmio da França de 1989[3] e desde então o prodígio francês viu sua cotação subir a partir de alguns duelos contra a McLaren de Ayrton Senna em 1990. Nos Estados Unidos, o francês largou em quarto lugar, saltou para a liderança e ponteou por trinta e quatro voltas até ser superado por Senna, o vencedor da prova.[4] No caso de Mônaco o triunfo do brasileiro ocorreu sob uma vantagem ínfima,[5] sendo que Jean Alesi foi o segundo colocado nas duas ocasiões.
Cientes do potencial de Jean Alesi, os dirigentes da Williams assinaram um contrato com o piloto, o qual seria anunciado durante o Grande Prêmio da França de 1990 a fim de prestigiar a Renault,[6] fornecedora de motores da equipe britânica, mas o evento foi adiado para o Grande Prêmio da Grã-Bretanha, prova onde Nigel Mansell anunciou sua aposentadoria ao final de seu contrato com a Ferrari.[7] Nesse momento, Frank Williams negociava nos bastidores para contratar Ayrton Senna, tratativas malogradas pela renovação do brasileiro com a McLaren.[8] Sentindo-se iludido pela Williams, Alesi assinou com a Ferrari para 1991, fato que obrigou o time italiano a indenizar a Tyrrell em dinheiro e a ressarcir a Williams de forma inusitadaː oferecendo à escuderia britânica uma Ferrari F1 641, modelo pilotado por Alain Prost em 1990 e o único "corpo estranho" no museu da Williams em Grove,[6] além de US$ 4 milhões, razão pela qual a Ferrari anunciou a contratação de Jean Alesi como substituto de Nigel Mansell apenas em Portugal.[9] "Estou muito feliz pelo Jean e a Ferrari com ele; se a equipe está feliz, também estou...",[10] disse Mansell sem disfarçar a ironia.
Sem nenhum alarde, a Tyrrell contratou Stefano Modena para 1991[11] enquanto Alessandro Nannini manteve-se vinculado à Benetton apesar de ter negociado com a Ferrari.[9] Entretanto, a pergunta sem resposta eraː quem ocupará a vaga disponível na Williams? Rumores durante o fim de semana apontam que o favorito é Nigel Mansell, o qual desisitiria de aposentar-se em troca de seu retorno ao time de Grove.[12]
Nigel Mansell, a esfinge
Na sexta-feira, McLaren e Ferrari alternaram-se nas primeiras posições do treino, com Ayrton Senna adiante de Alain Prost e Gerhard Berger na frente de Nigel Mansell. Avaliando a adaptação de suas máquinas ao ondulado circuito de Estoril, os líderes do campeonato fizeram suas queixasː Senna reclamava do equilíbrio do carro, o qual saia muito de traseira, e quanto a Alain Prost, as circunstâncias o obrigavam a pilotar de modo mais agressivo, algo incomum em seus dez anos de carreira. "Esta corrida é decisiva para mim. Tenho consciência de que, se chegar em quarto lugar, o mundial deste ano acabou".[13] Aferindo o desempenho da Ferrari, o francês garantiuː "O que nos falta é um motor de resposta mais rápida".[13] Nigel Mansell, por seu turno, lamentou a baixa aderência dos pneus usados pelas máquinas vermelhas.
Nigel Mansell fez o melhor tempo logo aos nove minutos do treino de sábado suplantando a marca de Ayrton Senna, contudo Alain Prost estragou a alegria de seu companheiro de equipe. Cinco minutos depois, o "leão" estabeleceu a melhor marca do fim de semana[14] para não mais perdê-la. Examinados os tempos, a Ferrari garantiu a primeira fila com Mansell ao lado de Prost deixando Senna em terceiro e Berger em quarto, para desgosto da McLaren.[15] Questionado a respeito de seu desempenho, Senna não reclamou do carro e falou sobre o segredo da Ferrari em terras portuguesasː "Eles têm feito um esforço incrível para melhorar nos treinos. Tem motores de classificação, e isso nós não temos, nem a Renault".[16] Desde o Grande Prêmio da Grã-Bretanha de 1988, o time de Maranello não ocupava a primeira fila num Grande Prêmio de Fórmula 1,[15] sendo esta a 110ª (centésima décima) pole position da equipe italiana.
Se na pista o voraz Nigel Mansell conquistou a décima quinta pole position de sua carreira, na entrevista coletiva os repórteres insistiam em saber como ele agiria em relação à luta entre Ayrton Senna e Alain Prost pelo título mundial de 1990. "Em primeiro lugar, tenho que ser competitivo para ganhar a corrida. Se eu estiver na frente, e Ayrton estiver em segundo, e Alain em terceiro, então eu ganharei a corrida. Provavelmente se eu estiver liderando a corrida e Alain em segundo e Ayrton em terceiro, cinco ou seis segundos atrás de Alain, eu não sei o que a Ferrari me pedirá para fazer. Mas posso imaginar", disse o britânico sem esconder o riso.[17] O cenho do piloto crispou quando o interpelaram a respeito de uma ordem da Ferrari para a inversão de posições, embora sua resposta tenha sido ambivalenteː "Eu sou profissional. Será a decisão mais dura da minha vida se realmente me pedirem para desacelerar. Eles podem emitir uma ordem. Tudo que posso dizer é que sei que Alain será muito rápido amanhã. Sei que ele terá pelo menos a mesma potência que eu".[17] Instado a falar, Prost tentou soar indiferenteː "Pretendo logo no começo tentar pegar a dianteira, mas não tenho a menor intenção de pedir a ninguém que me ajude. Se a equipe desejar que diga a Nigel para ir mais devagar e me ajudar".[17]
Fora do "clube fechado" onde Ferrari e McLaren digladiam-se ferozmente, o melhor classificado foi Riccardo Patrese com o modelo FW13 da Williams, quinto colocado à frente da Benetton, time atrelado essencialmente à capacidade e aos resultados de Nelson Piquet. Fechando o grupo dos melhores classificados, encontramos Thierry Boutsen, também da Williams, e Jean Alesi em sua Tyrrell.[9] Este, aliás, desfruta de um status cobiçado, o de "piloto do momento".[6] Em sentido inverso há quem tenha trilhado o caminho inverso ao da eficiência, caso da Life ao trocar os sofríveis motores W12 de fabricação própria por unidades da Judd destinadas aos carros da Leyton House a fim de melhorar o desempenho da equipe italiana sob o comando do veterano piloto Bruno Giacomelli, mas o resultado foi vergonhosoː quando os mecânicos montaram (a toque de caixa, é verdade) o motor, a tampa do mesmo não encaixava e quando Giacomelli deixou o boxe para disputar a pré-classificação, a carenagem voou após cem metrosǃ[18]
Ferrari contra Ferrari
Sem vencer desde o Grande Prêmio da Hungria de 1989,[19] Nigel Mansell estava disposto a quebrar o jejum, mas a forma escolhida para isso foi inesperada. Quando apagaram as luzes, o carro do britânico patinou e ele foi parar na área interna da pista espremendo o carro de Alain Prost até o limiar de uma batida e com isso Ayrton Senna e Gerhard Berger assumiram a liderança enquanto Nigel Mansell estabeleceu-se em terceiro adiante de Nelson Piquet com Alain Prost em quinto e Riccardo Patrese em sexto.[20] O trio de líderes manteve-se próximo durante vinte e seis voltas, sendo que Senna e Berger pontearam por mais duas. Nesse interregno, Prost demorou treze voltas para superar Piquet e Berger fazia o possível a fim de suportar o ataque de Mansell.[21]
Próximos à metade da prova, os corredores foram chamados para os pit stops e nisso os candidatos ao título de 1990 viveram situações dísparesː Ayrton Senna parou quando havia três retardatários à sua frente e retornou ao asfalto com pista livre[21] enquanto Alain Prost foi vítima de uma parada ruim. "Para mim o campeonato acabou", disse ele ao final da etapa portuguesa.[22] Ainda na pista, o francês voltou do boxe em quarto lugar, atrás de Gerhard Berger (outrora líder da prova durante três voltas) e na frente de Alessandro Nanini e Nelson Piquet, dupla da Benetton. Em primeiro lugar, Ayrton Senna manteve-se em primeiro lugar por mais dezoito giros, contudo o rendimento superior de Nigel Mansell o fez pulverizar a diferença e assim o britânico assumiu a liderança na volta cinquenta.[21]
Ultrapassagens são ingredientes indispensáveis no automobilismo, todavia a manobra envolvendo Mansell e Senna despertou a lembrança do ocorrido no Grande Prêmio de Portugal de 1989 quando, já punido com uma bandeira preta, o "leão" ignorou a sinalização e emparelhou com Senna causando uma batida que eliminou ambos da corrida dificultando a luta do brasileiro pelo bicampeonato naquele ano.[23] Ciente de que o adversário em seu encalço não era Alain Prost, o piloto da McLaren não ofereceu resistência. A manobra ocorreu na entrada da reta dos boxes quando o britânico aproveitou o impulso gerado pelo vácuo.[24] "Ele tinha um carro mais rápido que o meu e não valia a pena correr o risco", afirmou Senna.[21] Correr pensando no campeonato ajuda a explicar a atitude de Senna, mas havia outro fator nessa equação, revelado após a corridaː "No sábado, depois que ele fez a pole, que o cumprimentei. Ele me puxou para um canto e disse que eu não precisava me preocupar, porque ele não faria nada que pudesse me atrapalhar".[25]
Nigel Mansell trazia Ayrton Senna em segundo e entre eles havia uma vantagem razoável, mas a corrida ainda trouxe alguma emoção quando Alain Prost tomou o terceiro lugar de Gerhard Berger na volta cinquenta e nove encurtando a distância em relação a Senna, mas um novo duelo entre os campeões não foi possível devido a um acidente entre a Arrows de Alex Caffi e a Lola de Aguri Suzuki na segunda curva do circuito, a Tanque, o que lançou Caffi de encontro ao guard rail quase no mesmo instante que Berger sucumbiu a Prost. Os fiscais de pista tentaram socorrer o piloto, mas como havia dificuldade em fazê-lo por tratar-se de um setor da pista sem área de escape, a direção de prova encerrou o Grande Prêmio de Portugal de 1990 na volta sessenta e um, dez giros antes do previsto.[2] A respeito de Alex Caffi, o mesmo foi levado de maca para o centro médico do autódromo, atendido por Sid Watkins e depois enviado ao Hospital de Santa Maria na capital lusitana onde diagnosticaram escoriações em uma das pernas e dores no tornozelo esquerdo.[26] Por conta do encerramento abrupto da corrida, Nigel Mansell venceu sua última corrida pela Ferrari enquanto Ayrton Senna foi o segundo a bordo da McLaren e Alain Prost ficou em terceiro com a outra Ferrari. Em quarto chegou Gerhard Berger completando o dia da McLaren enquanto a Benetton fechou a zona de pontuação com Nelson Piquet e Alessandro Nanini.[9]
Ao descer do carro, Nigel Mansell abraçou Cesare Fiorio, diretor-técnico da Ferrari, enquanto Alain Prost mal cumprimentou o chefe. No pódio, o piloto britânico era a personificação da euforia e em consequência disso abraçou Ayrton Senna enquanto Alain Prost remoía as próprias mágoas. Soube-se depois que a vitória de Mansell não foi possível apenas por seu arrojo, temperamento ou pelas condições do carro, mas também por um entendimento de Fiorio segundo o qual uma inversão de posições em favor de Prost só teria sentido caso uma vitória garantisse o título do francês já no Autódromo do Estoril, cenário não concretizado.[22] "Quando apareceu a luz verde e eu acelerei forte, o carro começou a derrapar e girou para a direita. Não tinha como corrigir a trajetória. Acho que foi a pior largada de minha carreira e peço desculpas a Alain por tê-lo atrapalhado",[27] disse o "leão" a respeito de seu começo surpreendente de prova. Alain Prost, por sua vez, fulminouː "A Ferrari não merece ser campeã".[22] A essa altura, Ayrton Senna tinha 78 pontos contra 60 de Alain Prost e estava a uma vitória do bicampeonato, título que virá caso o brasileiro vença o Grande Prêmio da Espanha ou até mesmo sem marcar pontos, desde que Alain Prost seja no máximo terceiro colocado na etapa em questão.[28]
Rivais reconciliados
Durante o fim de semana a relação entre Ayrton Senna e Nigel Mansell foi depurada por gestos de reconciliação, a começar pela atitude do brasileiro que pediu desculpas ao rival por atrapalhá-lo durante uma volta rápida nos treinos de sexta-feira. "No primeiro treino, eu não vi o Mansell atrás de mim e o atrapalhei. Fui aos boxes da Ferrari e pedi desculpas".[25] No dia seguinte, ao ser felicitado pela pole position, Mansell garantiu a Senna que não o prejudicaria e na entrevista pós-corrida a paz foi selada. "Eu quero deixar claro aqui que o ocorrido entre eu e Senna está apagado. Ele é um grande piloto, correto. Eu quero apertar sua mão".[25] Dito isso, Ayrton Senna correspondeu ao gesto com alegria e alívio.
Classificação da prova
Pré-classificação
Pos. | Nº | Piloto | Construtor | Tempo | Dif. |
---|---|---|---|---|---|
1 | 14 | Predefinição:Country data France Olivier Grouillard | Osella-Ford | 1:19.384 | — |
2 | 18 | Predefinição:Country data France Yannick Dalmas | AGS-Ford | 1:19.885 | + 0.501 |
3 | 31 | Predefinição:Country data Belgium Bertrand Gachot | Coloni-Ford | 1:20.000 | + 0.616 |
4 | 17 | Predefinição:Country data Italy Gabriele Tarquini | AGS-Ford | 1:20.942 | + 1.558 |
5 | 33 | Roberto Moreno | Eurobrun-Judd | 1:21.188 | + 1.804 |
6 | 34 | Predefinição:Country data Italy Claudio Langes | Eurobrun-Judd | 1:23.447 | + 4.063 |
7 | 39 | Predefinição:Country data Italy Bruno Giacomelli | Life-Judd | s/ tempo | — |
Treinos oficiais
Corrida
Tabela do campeonato após a corrida
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Referências
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